Definição

O pé torto congênito é relativamente comum, acometendo 1 bebê a cada 1.000 nascidos vivos. Na maioria dos casos é uma doença isolada que acomete apenas o membro inferior. Trata-se de uma alteração anatômica do alinhamento do pé, na qual o pé se encontra desviado para dentro e para trás, conforme a imagem abaixo (Figura 1).

PTC 1.1

Figura 1 – imagem clínica de um paciente com pé torto congênito bilateral.

No pé torto congênito os tecidos que ligam os ossos (tendões e ligamentos) são mais curtos que o usual em alguns pontos, causando as deformidades observadas.

A doença está presente ao nascimento, momento do diagnóstico, porém muitas vezes a descoberta da doença pode ser através de ultra-sonografia durante a gravidez. Pode acometer ambos os pés em até 50% dos casos.

Quadro Clínico

A criança com pé torto congênito consegue andar, porém, de maneira diferente e muitas vezes dolorosa na vida adulta. Por este motivo está indicado o tratamento logo que a criança nasce. A maioria dos casos é tratada com sucesso com o tratamento sem cirurgia, mas algumas acabam precisando operar.

A criança com pé torto congênito pode apresentar os seguintes achados:

  • a ponta do pé voltada para dentro e para baixo, aumentando o arco do pé e virando o calcanhar para dentro.
  • o músculo da panturrilha também é afetado, encontrando-se menor e subdesenvolvido.
  • o pé afetado é menor que o lado normal (quando houver) em 1 a 2 cm.

Apesar do aspecto, o pé torto congênito não causa dor ou desconforto.

Causas

A causa da doença não é conhecida (idiopática), mas sabe-se que não é causada pela posição do feto dentro do útero. O pé torto congênito pode estar associado a outras doenças, geralmente neurológicas, como mielomeningocele (espinha bífida), paralisia cerebral, sendo conhecido então, como pé torto neuropático.

Fatores de Risco

  • Tabagismo durante a gravidez
  • sexo masculino (mais comum)
  • história familiar: pode acometer irmãos e filhos
  • oligodrâmnio: pouco líquido dentro do útero durante a gestação
  • infecção materna ou uso de drogas durante a gravidez.

Complicações

O pé torto congênito não causa problemas até que a criança comece a andar e ficar de pé. Se a criança for tratada, apresentará algumas dificuldades durante a vida:

  • tamanho do calçado: já que o lado acometido é menor que o normal.
  • mobilidade: em alguns casos a flexibilidade do pé fica diminuí Geralmente após cirurgia.

Se a criança não for tratada, apresentará mais dificuldades durante a vida:

distúrbio da marcha: a criança não consegue andar sobre a sola dos pés. Anda apoiando o lado de fora dos pés, enquanto a ponta fica voltada para dentro (Figura 2).

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Figura 2 – imagem clínica de paciente adulto com pé torto congênito não tratado.

  • dificuldade de encontrar calçados: aqui não é apenas o tamanho que dificulta, mas principalmente o alinhamento do pé, sendo necessário sapatos sob medida ao longo de toda a vida, o que pode ser muito caro (Figura 3).

Figura 3 – imagem clínica de paciente com calçado especial para pé torto congênito não tratado.

  • dor nos pés: a sola do pé é o local mais apropriado para apoiar o peso do corpo. Como no pé torto congênito sem tratamento (Figura 4) isso não ocorre, o pé apresenta inúmeros calos dolorosos. Além disso, o alinhamento dos ossos e tendões não está adequado, podendo causar a longo prazo desgaste das juntas (artrose), causando muita dor ao andar.
  • baixa auto estima: este é um dos problemas mas importantes. A pessoa que não aceita uma diferença que tenha no corpo passa a se isolar da convivência de outras pessoas por se achar inadequado ou inferior. Estas pessoas, por vezes apresentam depressão, distúrbio da auto imagem e crises de pânico.
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Figura 4 – imagens clínicas de paciente não tratado com pé torto congênito (pé torto inveterado).

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, baseado no exame físico ou ultrassom gestacional. A ultrassonografia geralmente detecta os casos bilaterais.

Tratamento

Devido à grande elasticidade dos recém-nascidos, o tratamento deve ser iniciado dentro de 7 a 10 dias de vida. O objetivo do tratamento é melhorar o alinhamento do pé da criança antes que a mesma aprenda a ficar de pé ou andar.

Atualmente o melhor tratamento para o pé torto congênito é o método de Ponseti.

Ignacio Ponseti foi um ortopedista espanhol que ficou famoso ao definir um tratamento simples, de fácil aprendizado, fácil disseminação e barato para o pé torto congênito. Seu método defende a manipulação gentil do pé seguida de gesso da virilha até o pé (inguinopodálico). A manipulação serve para alongar as estruturas contraturadas do pé. Após o alongamento, mantém-se o pé na posição obtida e coloca-se o gesso. O mesmo deve ser trocado a cada 7 dias, quando uma nova manipulação será realizada, e por sua vez, um maior alongamento. A duração do tratamento com gesso varia de criança para criança, podendo ser de 5 gessos a 30 gessos ou mais. Contanto que esteja havendo melhora do alinhamento do pé entre um gesso e outro o tratamento conservador deve ser mantido (Figura 5).

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Figura 5 – imagem clínica de paciente com pé torto congênito imediatamente após a confecção do gesso de Ponseti.

O tratamento com gesso é realizado até que o pé atinja a posição correta (o pé consegue ser rodado para fora 70 graus e a ponta do pé elevada em até 30 graus).  Às vezes a criança necessita de uma pequena cirurgia antes do último gesso para completar a correção do pé. Este procedimento é para alongar o tendão de Aquiles e pode ser realizado com anestesia local, na presença dos pais e a criança vai embora no mesmo dia. Após a cirurgia é colocado um novo gesso que será mantido por 3 semanas. E com isso termina o tratamento com gesso do pé torto. A seguir começa o tratamento com a órtese (Figura 6).

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Figura 6 – órtese de Denis Browne.

A órtese é um aparelho que segura o pé na posição correta, porque mesmo que o pé tenha sido completamente corrigido com o gesso, a deformidade vai voltar se não usar o aparelho.

Ela deve ser utilizada 24 horas por dia pelos 3 meses após a retirada do último gesso, retirando apenas para o banho. Depois disso, a criança deverá utilizá-la por 12 horas à noite e 2 a 4 horas no meio do dia até que a criança tenha 4 anos de idade.

A utilização inadequada da órtese e seu abandono antes do prazo são as principais causas do problema retornar. O pé volta a entortar e dependendo da idade não dá mais para fazer o tratamento com gesso. Isso ocorre em 80% dos casos que não fizeram o uso adequado da órtese. Nas famílias que a utilizam corretamente, a taxa de retorno do pé torto é de 6%.

Apesar do tratamento pelo método de Ponseti ser altamente eficaz, existem casos em que há falhas (pés com deformidades graves, abandono do tratamento conservador, pés neuropáticos, pés tortos inveterados ou negligenciados). Nestes está indicado o tratamento cirúrgico. Existem várias abordagens e técnicas diferentes.

A cirurgia tem como objetivo o alongamento das estruturas contraturadas (ligamentos, tendões e cápsulas) e melhora da posição dos ossos. Após a cirurgia, coloca-se um novo gesso e pode ser mantido por até 3 meses.

Conclusão

O pé torto congênito é uma doença que não causa dor, mas pode prejudicar a maneira de andar da criança e adulto. Por este motivo é preciso tratar. O tratamento de escolha é a massagem do pé seguida de gesso, iniciado logo na primeira semana de vida. O objetivo do tratamento é obter um pé que encoste a sola do pé toda no chão, seja flexível e sem dor. Já o tratamento cirúrgico tem como objetivo obter um pé que apóia a sola do pé no chão, mas muitas vezes o pé perde parte da sua flexibilidade devido às cicatrizes cirúrgicas e por vezes o paciente tem dor (Figura 7). Com base nisso é muito importante o conhecimento da doença para o seu diagnóstico precoce e seu tratamento adequado, que consiste de baixo custo e ampla acessibilidade.

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Figura 7 – imagem clínica de paciente após tratamento cirúrgico do pé torto congênito.

“Em nenhuma circunstância as informações aqui publicadas substituem a consulta com o seu médico”

“Para mais informações procure sempre o seu Ortopedista Pediátrico e realize uma consulta presencial”

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